quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Quem estará à altura de D. Diogo de Sousa?

D. Diogo de Sousa é o maior vulto da história de Braga
D. Diogo de Sousa é incontornavelmente o maior vulto da história de Braga. Arcebispo entre 1505-15032, lançou as bases do urbanismo da cidade até quase ao século XX e voltou a torná-la grande, numa altura em que poderia ter sido condenada ao esquecimento. Os descobrimentos abafaram as cidades que não estavam junto ao mar - Coimbra salvou-se por causa da Universidade... - e D. Diogo de Sousa, conhecedor da Roma renascentista, dotou Braga de novas ruas e espaços urbanos, mandou construir novos templos, fontes e infra-estruturas para o comércio. Convidou artistas para virem trabalhar em Braga e assistiu à fundação de novos conventos e promoveu a existência de formação superior, através da fundação do Colégio de São Paulo.
Não deixa de ser surpreendente que na recente tomada de posse do novo Presidente da Câmara de Braga, o presidente da Assembleia Municipal cessante tenha comparado este Arcebispo a Mesquita Machado(!)... Aliás, a reacção da assembleia popular presente, que brindou esta arrojada observação com apupos e impropérios pouco recomendáveis, foi a melhor resposta para o autor de tamanha maquilhagem histórica. É certo que as leituras históricas estão sempre sujeitas à especulação e à mitificação, todavia há limites para a liberdade criativa.
Quem tenta fazer esta analogia, entra imediatamente em contradição. D. Diogo de Sousa expropriou terrenos para usufruto público; não propriamente para incrementar negócios imobiliários e a propriedade privada. D. Diogo de Sousa promoveu a abertura de grandes praças e espaços verdes, alargou ruas e rasgou as muralhas; não foi o responsável pelo aproveitamento excessivo de terrenos urbanizáveis, construindo ruas estreitas e escuras, muito menos adensou uma muralha de vias rápidas que separou os habitantes da cidade. D. Diogo de Sousa espalhou arte pelos espaços urbanos e inaugurou fontes que brotavam água; não promoveu a demolição de imóveis que representavam vectores artísticos e, muito menos, retirou a água das fontes que embelezam as praças da cidade.
Há para aí umas estranhas correntes sofistas que tentam fazer crer que D. Diogo de Sousa também foi um destruidor de património, dado que para abrir ruas e praças teria que demolir o edificado anterior. Como se pode querer comparar alguém que deu as linhas mestras para uma cidade bem planeada e de ruas largas e amplos espaços urbanos com o legado de outrém que desordenadamente a planeou com ruas estreitas e poucos ou nenhuns espaços de usufruto público?
Este discurso altamente falacioso esquece que as habitações comuns medievais eram bastante efémeras devido ao tipo de construção então utilizada, pelo que apenas foi reorganizada a sua distribuição no espaço. Quanto à destruição de património, não consta que tal tivesse sucedido. Aliás, foi D. Diogo de Sousa quem ergueu os primeiros monumentos dignos desse nome depois do edifício da Sé Primaz, o único digno de menção até então. Cruzeiros, fontes e capelas proliferaram pela cidade, para além do acrescentamento artístico da capela-mor e cabeceira da Sé Primaz e alargamento do Paço. Para quem quiser insistir nessa irracionalidade, deverá ainda recordar o facto deste Arcebispo ter sido o primeiro a proteger o legado romano ainda subsistente em Braga. Junto à capela de Santana, que se localizava na actual avenida Central, D. Diogo mandou juntar a maior colecção de marcos miliários da península Ibérica, entre outras relíquias do período romano. Não, D. Diogo de Sousa não protegeu nem patrocinou os promotores da destruição de vestígios arqueológicos...

Acresce a este dado, o facto de D. Diogo de Sousa, em missiva enviada a D. João III, ter referido que utilizou os próprios bens pessoais para concretizar alguns dos seus projectos para Braga. A simplicidade como vivia este Arcebispo atesta que pouco tinha de seu quando a 19 de Junho de 1532 se despediu da vida. Não consta que Mesquita Machado se encontre na mesma situação...
Se queremos encontrar alguém que possa ser capaz de ombrear com D. Diogo de Sousa pela valia dos seus actos de gestão e pelo altruísmo dos seus actos, talvez possamos arriscar alguns nomes. O Arcebispo D. Rodrigo de Moura Telles, talvez, ou António Maria Santos da Cunha, um verdadeiro amante do povo. Todavia, continuo a entender que é muito difícil estabelecer uma analogia, tal foi a magnitude da sua acção.

Fica a minha opinião, devidamente sustentada!

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