segunda-feira, 4 de março de 2013

O antigo campo dos Remédios

O Campo dos Remédios em finais do século XIX (© Manoel Carneiro)
O largo Carlos Amarante nos mapas de Braga em 1594 e 1757, respetivamente


O largo Carlos Amarante é um dos principais espaços urbanos do centro histórico de Braga. Marcado pela monumentalidade dos dois edifícios religiosos que hoje se destacam nos seus limites, o seu primitivo nome foi Rossio de S. Marcos, devido à existência de uma capela com as relíquias deste evangelista, trazidas presumivelmente pelos templários para a cidade de Braga.
No século XVI adquiriu importância no contexto urbano e vai passar a chamar-se de Campo dos Remédios, devido ao edifício mais importante existente neste lugar: o convento de Nossa Senhora da Piedade e dos Remédios. Contudo, a história passou por aqui muito antes.
Este espaço urbano, situado fora do perímetro das muralhas de Bracara Augusta, localizava-se nas imediações da Via XVII, que ligava a capital da Galécia a Astorga. Confirmando este dado, em 1981 foram encontradas algumas sepulturas da época romana, que integrariam uma das maiores necrópoles da cidade romana.
Esta praça vai assumir-se como tal particularmente após a chegada a Braga do arcebispo D. Diogo de Sousa (1505-1532) que, ao criar um eixo de circulação entre a Sé e a porta de São João, vai permitir uma utilização mais frequente desta saída da cidade, que permitia o trânsito para Guimarães.
A porta de S. João, ou porta “Orienta”, é mencionada, pelo menos, desde 1210, localizando-se sensivelmente no lugar onde hoje se encontra a Casa dos Coimbras. Demolida em 1867, a porta deteve importância motriz para o surgimento do espaço que hoje denominamos largo Carlos Amarante, dado que surgiu na sequência da iniciativa de D. Diogo de Sousa de construir “campos” junto a todas as portas da muralha. Entretanto, o mesmo prelado vai abrir a rua dos Granjinhos - que ligava o largo Carlos Amarante à antiga ermida de S. Lázaro – confirmando a intenção de urbanizar esta área.
O hospital de S. Marcos (entretanto reedificado por Carlos Amarante) foi o primeiro grande edifício a dar forma a este conjunto urbano, dado ter sido fundado durante a prelazia de D. Diogo de Sousa, em 1508.
Em seguida, foi fundado o convento dos Remédios, no ano de 1544, por intermédio de D. Frei André de Torquemada, religioso franciscano, tendo sido o primeiro convento a surgir em Braga. Este cenóbio feminino, da ordem de S. Francisco, ocupava toda a zona Nascente do largo Carlos Amarante, desde a rua de S. Marcos até ao fundo da rua de S. Lázaro. Do complexo conventual demolido em 1911, para permitir a construção do Theatro Crirco, é de destacar o monumental edifício setecentista que fazia gaveto com a rua de S. Marcos e a igreja barroca. Alguns dos seus despojos foram espalhados pelo Parque da Ponte.
Nas décadas de 30 e 40, completando o local onde estava o convento, surgiu o Cinema S. Geraldo, que esteve em funcionamento até à década de 80, e, pouco tempo mais tarde, surgiu a Auto Viação Marinho, central de camionetas desativada nas expropriações do 25 de abril.
O edifício que mais se destaca atualmente neste espaço urbano é a igreja de Santa Cruz, nascida da devoção a um cruzeiro. Este templo, apresentando uma profunda intimidade com toda a simbologia da Paixão e morte de Jesus, tem a sua estrutura arquitetónica e decorativa ligada aos símbolos ressaltados nos relatos dos Evangelhos. Construída em diversas fases, entre o ano de 1617 e 1736, o templo apresenta uma interessante fachada. O plano inicial pertenceu a Geraldo Alvares, tendo recebido novos traços do engenheiro militar Manuel Pinto de Vilallobos e de Carlos António Leoni. No interior impera o denominado período nacional, manifestado esplendorosamente na talha dourada dos retábulos. A Capela-Mor, bem como o destacado sanefão que recobre o arco-cruzeiro, saíram das mãos de Frei José Vilaça. É nesta igreja que, durante a Semana Santa, se realiza a procissão dos Passos, cujo sermão do encontro tem lugar no largo Carlos Amarante, sendo o seu maior acontecimento anual.
Até ao início do século XX, no dia 25 de abril, festa litúrgica de S. Marcos, realizava-se uma feira anual neste largo que, em tempos, também promovia uma procissão.
Ainda no largo Carlos Amarante, batizado em 1930 com o nome do autor do traço da fachada e igreja do Hospital, é importante destacar o fontanário de origem seiscentista, que outrora esteve no campo da Vinha. Este monumento, que foi transferido para aqui no segundo quartel do século XX, é constituído por um alto obelisco e foi reformado no século XIX.

1 comentário:

  1. "É nesta igreja que, durante a Semana Santa, se realiza a procissão dos Passos..."

    A Procissão dos Passos na cidade de Braga é organizada pela Irmandade da Santa Cruz e realiza-se no Domingo de Ramos (início da Semana Santa).
    Na noite anterior, o andor do Senhor dos Passos é transferido da igreja de Santa Cruz para a igreja de S. Paulo. Segue-se a Via Sacra, pelos oito Passos (calvários) espalhados pelo miolo da cidade.

    No Domingo de tarde, arranca a procissão da igreja de S. Paulo, vindo a deter-se diante da igreja de Santa Cruz, donde é pregado o Sermão do Encontro e donde sai o andor da Senhora das Dores para a encenação dramática desse episódio "bíblico". A procissão retoma então o seu percurso, até que recolhe, precisamente na igreja de Santa Cruz.

    ResponderEliminar