domingo, 3 de março de 2013

MAIOR AO DOMINGO: Carlos Santos

Começo por agradecer o convite do amigo Rui Ferreira, cujo o trabalho acompanho atentamente, e que muito tem contribuído para despoletar consciências em Braga para a proteção e valorização patrimonial. Enquanto autor do blogue BragaOn e amante da cidade de Braga, aproveito este espaço que me foi concedido para fazer uma breve exposição de alguns temas que julgo serem importantes quando se pensa Braga.

Estamos em ano de eleições, altura em que surgem diversas promessas, os políticos demonstram interesse pelo património, pelo desenvolvimento do turismo, pelo apoio aos jovens e iniciativas criativas, pela construção de espaços verdes, por estudos para o desenvolvimento da rede de transportes públicos, pela implementação de meios de transporte alternativos ao automóvel…
Contudo há que olhar para a realidade da nossa cidade e procurar perceber o que realmente tem sido feito e qual o caminho a seguir.

Centro histórico, património e turismo
Quando se fala de património, há a tendência para se pensar apenas no património arqueológico, no que tem sido feito em relação ao seu estudo, musealização e conservação. Exemplos como a Praia das SapatasCardoso da SaudadeRua dos Chãos, ... deixam todos os amantes e interessados no património com enormes reservas quanto à forma como este tem sido tratado.
Porém o património de Braga é muito mais vasto, e ao analisarmos as intervenções efetuadas ao longo das últimas décadas, torna-se evidente que a preservação, tanto dos edifícios como das praças históricas, não foi uma prioridade. Exemplos como o Largo dos Penedos, a Rua dos Capelistas, Rua dos Granjinhos, o Palacete Matos Graça, a destruição de solares e edifícios históricos para a construção de edifícios sem valor patrimonial, a classificação em área urbanizável dos terrenos que agora compõem a zona especial de proteção do monumento nacional das Sete Fontes, a descaraterização das zonas históricas, ..., demonstram que além do património arqueológico também o restante património não foi visto como uma mais-valia e como algo a explorar em benefício do município.
Urge mudar esta política em Braga, o património deve passar de fardo a oportunidade.

Planeamento Urbano
A sociedade nunca foi tão instruída e rica como atualmente, contudo numa época em que os fundos comunitários abundaram, em que a cidade possuía uma Universidade do Minho que poderia ajudar a pensá-la, verificamos que talvez nunca o crescimento foi tão desarmonioso e desprovido de espaços verdes, nunca se apostou tanto num meio de transporte poluente e caro, nunca se retirou tanto espaço aos meios de transporte públicos e alternativos, como no pós 25 de abril.
Quando observamos as novas áreas da cidade, verificamos que a malha urbana não cresceu em continuidade, ao invés foram criados autênticos "guetos" com exíguas entradas, compostos por um emaranhado de vias rodeadas de alta densidade construtiva, sem continuidade com a restante cidade, sem áreas públicas dignas de registo, um dos exemplos mais paradigmáticos será o Bairro das Fontainhas.
Verificamos também que além de não se terem construído novas artérias urbanas, como a Avenida da Liberdade ou a 31 de Janeiro, se introduziram diversas barreiras às vias urbanas existentes. A forma como foi projetada a “Circular Urbana” construída preferencialmente à superfície ou mesmo recorrendo a viadutos, levou ao corte ou à desvalorização de importantes eixos da cidade, como a ligação da Universidade ao centro histórico, ou a expansão da malha urbana em direção ao vale do Cávado, com o corte de ruas como a da Boavista.
Além disso, verificou-se ainda a proliferação de áreas urbanizáveis por todo o município, num urbanismo dispersivo alicerçado em variantes, que resultam não numa área citadina, mas numa amálgama de áreas rurais, industriais e residenciais que em nada contribuem para a projeção e competitividade da cidade, além de destruírem áreas agrícolas, florestais, como é exemplo o crescimento para o vale do Cávado.
Constata-se ainda, que os transportes públicos perderam a rede de tróleis, os carris dos elétricos foram removidos na década de 80 e em nome do progresso optou-se apenas pelos autocarros, sendo que em 1990 a rede transportava cerca de 30 milhões de passageiros anualmente, e volvidos 23 anos, tendo a área urbana duplicado a população, o número de passageiros caiu para perto dos 10 milhões.
Conclui-se então, que a cidade propriamente dita, onde os cidadãos se podem deslocar de forma aprazível e sem recurso ao automóvel, confina-se praticamente à zona histórica da cidade.
Numa altura em que o Plano Diretor Municipal está em revisão, será vital procurar inverter este urbanismo dispersivo e desorganizado que se verificou nas últimas décadas, e esta forma de pensar a cidade. Deve-se procurar construir cidade para os cidadãos e não apenas para os automóveis e baseada na especulação imobiliária.

Política regional e nacional
No âmbito da política regional e nacional, por diversas vezes ouvimos afirmações como “a capital do Minho” ou “a terceira cidade de Portugal”. Contudo na realidade, observamos uma perda de importância estratégica de Braga em diversas áreas, como a sucessiva perda de sedes e serviços administrativos, a extinção dos Distritos e a nova organização territorial e política que está a ser preparada, onde o Minho foi esquecido, em favor não da “Galiza Bracarense”, mas de uma “neoregião” com o nome de Norte. Braga a capital da Galécia Romana e da região do Minho e do Entre Douro-e-Minho, ficará no futuro reduzida à pequena "NUTS III Cávado".
Os sucessivos executivos camarários de Braga, nunca foram capazes de implementar uma política regional efetiva, que agregasse os diversos municípios em objetivos e produtos comuns. Que procurassem promover a marca Minho, o Parque Nacional da Peneda-Gerês, a implementação de roteiros turísticos integrados, a coesão territorial com o desenvolvimento de uma rede ferroviária do Minho, que começaria por simples concordâncias em Nine e Lousado, ... 
Braga precisa de políticos locais que entendam o papel de Braga na região e que a pensem dessa forma, que procurem colocar todo o Minho em rede, por forma a tornar a região competitiva.

A política de curto prazo, baseada na construção e expansão desregulada, deve ser substituída por políticas de fundo que estruturem o crescimento e potenciem Braga e a região.

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